Um La Niña está em formação, para a primavera de 2020


Por Letras Ambientais
sábado, 11 de julho de 2020


Atualizações de especialistas do Centro de Previsão Climática (CPC), da Administração Oceânica e Atmosfera Nacional (NOAA), continuam a indicar a formação de um La Niña fraco, no oceano Pacífico Equatorial, no segundo semestre de 2020.

Porém, os pesquisadores ainda não confirmaram se o atual resfriamento no Pacífico tropical atingirá padrões de intensidade e duração suficientes, para configurar um La Niña.

Eles concluíram haver chance de 50 a 55% de o La Niña se desenvolver, durante a primavera (setembro a dezembro) de 2020, com possível duração até o próximo verão (dezembro a março de 2021).

A previsão atual ainda apresenta uma probabilidade conservadora. Existe uma chance de 40 a 45% de que condições de neutralidade do El Niño Osilação Sul (Enos) permaneçam, durante a primavera e verão, e uma chance de 5 a 10% de El Niño.

Previsão de consenso CPC e IRI, em julho de 2020

Previsão de consenso da NOAA, em julho de 2020.

A questão está na temperatura do Pacífico profundo, que não apresentou uma grande fonte de água mais fria, para abastecer sua superfície, nos próximos meses. Apesar de uma grande área, com águas mais frias que o normal, no centro e leste do Oceano, a porção oeste está um pouco mais quente que o normal.

Por isso, há dúvidas de que o resfriamento superficial do Pacífico seja duradouro, para possibilitar o surgimento de um La Niña.

>> Leia também: Fim do El Niño - 7 pontos para entender o clima até 2020

La Niña fraco já influencia clima nas regiões brasileiras

Na figura acima, é possível observar a diferença na temperatura superficial do oceano Pacífico, em relação à média de longo prazo (o que os especialistas chamam de “anomalia”). Precisamente, na costa do Equador, Peru e norte do Chile, a anomalia da temperatura ficou ligeiramente abaixo da média, ou seja, houve um resfriamento (veja cor azul, destacada no mapa).

Esse é um dos indicativos de que julho de 2020 apresentou condições de La Niña “mais fraca”. É preciso que essas temperaturas continuem abaixo de -0,5 °C, por pelo menos três trimestres consecutivos.

>> Leia também: Atualização das condições de El Niño, a partir de maio de 2020

As previsões climáticas indicam um período de outubro a dezembro deste ano, mais chuvoso que o normal, na área central do Brasil, bem como nas regiões Norte e Nordeste.

Já no Centro-Sul, em condições de La Niña, costuma ocorrer o inverso. As projeções indicam estiagem no Centro-Oeste, Sudeste e, principalmente, na região Sul, reduzindo as safras de cana-de-açúcar e soja, bem como aumentando os preços do etanol. Assim, São Paulo, Mato Grosso do Sul e toda a região Sul devem receber chuvas abaixo da média, característica típica do Pacífico frio.

Para o meteorologista Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), em função do atual resfriamento, na temperatura da superfície do Pacífico, em relação à média de longo prazo, mesmo que o La Niña não se configure, a atmosfera continuará respondendo a essas temperaturas mais frias do Oceano. 

Com isso, o Brasil já sente os efeitos do resfriamento das águas do Pacífico. O frio intenso, que chega à região Sul, não tem atingido o Sudeste. As frentes frias e massas de ar polar têm se desviado rapidamente para o Atlântico.

Caso não se confirme um La Niña, nos próximos meses, o padrão de estiagem, no Centro-Sul, não vai durar muito tempo. Nesse caso, é mais provável que haja meses secos, alternados com meses mais chuvosos.

El Niño e La Niña na história do Planeta


As fases de aquecimento e resfriamento do fenômeno Enos são denominadas de El Niño e La Niña, respectivamente. Eventos de La Niña ocorrem em frequência menor do que de El Niño. De 1900 a 2019, ocorreram 31 episódios de El Niño e 21 de La Niña.

Nesse período, durante a maior parte (55%) dos anos, não houve El Niño e nem La Niña. Em geral, anos de El Niño tendem a ser um pouco mais quentes do que a média, enquanto anos de La Niña costumam ser mais frios que o normal. Mas há uma grande variação de ano para ano.

>> Leia também: Mudanças climáticas - 10 impactos sobre a Caatinga

O Livro “Um século de secas” apresenta um panorama completo dos eventos de El Niño e La Niña, no Semiárido brasileiro, durante mais de 100 anos. A obra analisa os impactos do fenômeno El Niño, nas atividades hídricas e agrícolas da região, durante cada seca, bem como as medidas políticas de mitigação adotadas.

Humberto Barbosa, autor de relatórios do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), explica que a combinação de El Niño com aquecimento global, processo provocado, em grande parte, pelo ser humano, já ajudou a tornar 2016 o ano mais quente, já registrado na história.

O que é intrigante, segundo o pesquisador, é que 2020 caminha para ser o segundo ano mais quente de que se tem registro, até agora, mesmo sem ocorrer um evento de El Niño.

Pesquisas climáticas indicam que a temperatura média global tem aumentado, como consequência da elevação nas emissões de gases de efeito estufa. Nos últimos dez anos, houve uma escalada, que reflete o aumento na concentração desses gases nocivos, na atmosfera.

“Temos altos e baixos, em função da variabilidade climática trazida pelo Enos, mas é clara a tendência de aumento, na temperatura média do Planeta. Isso é um sinal de que a Terra está ficando mais quente. O fenômeno La Niña ocorre nos intervalos entre o El Niño e a situação de normalidade, das temperaturas do oceano Pacífico”, completa Barbosa.

A temperatura média global, nos primeiros cinco meses de 2020, ficou mais de 1 ºC, acima da média histórica, em relação ao período 1850-1900, segundo o recente boletim da NOAA. Se essa tendência continuar, as temperaturas poderão subir entre 3 ºC e 5 ºC, até 2100.

A grande questão agora é saber se 2020 irá superar o ranking de ano mais quente da história científica, mesmo sem evento de El Niño. Será um assunto curioso para os especialistas se debruçarem.

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