Coronavírus: distância social é essencial para conter epidemia no Brasil


Por Letras Ambientais
sábado, 14 de março de 2020


Nas últimas semanas, a Covid-19, doença transmitida pelo coronavírus Sars-Cov-2, trouxe situação de pânico e caos aos mercados mundiais. Os impactos da enfermidade afetaram praticamente todas as economias globais, interrompendo as cadeias de suprimentos locais.

No começo de março, a redução na demanda por petróleo, por conta do coronavírus, deflagrou um conflito geopolítico entre a Arábia Saudita e a Rússia, fazendo derrocarem os preços do petróleo e, junto com eles, desabarem as bolsas de valores de todo o mundo.

A hiperconectividade entre os países, decorrente da globalização, espalhou, em velocidade alarmante, a Covid-19 para 185 países. No total, pelo menos 1,8 milhão de pessoas já foram infectadas em todo o mundo, referindo-se apenas às confirmações oficiais. Mais de 116 mil pessoas morreram vítimas da doença, que provocou quarentenas generalizadas em cidades e países. 

A escassez de testes para a população tem gerado uma enorme subnotificação da população atingida pela doença, na maioria dos países. 

Os dados são do mapa global da doença, lançado em janeiro deste ano, pela Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, nos Estados Unidos.

Mapa global da disseminação do coronavírus, em 13 de abril de 2020. Fonte: Johns Hopkins. 

Mapa global da disseminação do coronavírus, em 08 de abril de 2020. Fonte: Johns Hopkins. 

No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou pandemia do novo coronavírus, ou situação de emergência de saúde global. Uma doença infecciosa atinge esse patamar quando afeta um grande número de pessoas espalhadas pelo mundo.

No Brasil, já são mais de 22 mil casos confirmados, com 1.245 pessoas mortas, de acordo com dados do Ministério da Saúde, divulgados nesta quarta-feira, dia 13 de abril de 2020. 

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A crise sanitária, provocada pelo surto de coronavírus, coloca em alerta governos, empresas e sociedade civil para um processo de desaceleração da economia global. A Covid-19 é um exemplo imediato de como impactos locais se propagam rapidamente pelo mundo, tornando-se problemas globais.

O surto do novo coronavírus está relacionado aos riscos da crise climática, um enorme desafio, que requer ações imediatas de todo o mundo, para conter os seus impactos.

Este post trata da relação entre a crise sanitária provocada pelo novo coronavírus e os riscos relacionados ao clima, bem como das lições que o Brasil pode tirar de outros países nas ações de resposta à disseminação da doença.

Crise sanitária global por coronavírus e mudanças climáticas: entenda a relação

O surto do novo coronavírus é o que Nassim Nicholas Taleb chamaria de “cisne negro”, um evento inesperado e raro, com impactos amplos ou extremos, que perturba os mercados financeiros e prejudica as pessoas. As explicações para a sua ocorrência são desenvolvidas apenas após o fato, de forma retrospectiva. Os eventos de “cisne negro” podem assumir muitas formas, desde um ataque terrorista a uma tecnologia disruptiva, uma catástrofe natural ou mesmo um desastre biológico global.

Inspirado nesse conceito, o Banco Internacional de Compensações (BIS, do inglês Bank for International Settlements), desenvolveu o conceito de “cisnes verdes”, para analisar, no Livro “The Green Swan”, como as mudanças climáticas podem trazer riscos à estabilidade do sistema financeiro global. O BIS é considerado o banco dos bancos centrais e sua missão é promover a estabilidade financeira e de preços a longo prazo, nas economias globais.

Se a atual crise sanitária pelo novo coronavírus causa um impacto tão fulminante na economia global e na vida das pessoas, imagine o que pode acontecer com a intensificação das mudanças climáticas.

Um processo bem mais complexo, os impactos da crise climática podem provocar inúmeros desequilíbrios na sociedade e economia mundial, inclusive com novas epidemias e desastres biológicos globais, além de danos humanos, materiais e financeiros. 

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Segundo os especialistas que produziram a publicação “The Green Swan”, a crise provocada pelas mudanças climáticas, ou eventos de “cisnes verdes”, são diferentes dos “cisnes negros”, por três razões explicadas a seguir:

1ª) Os impactos das mudanças climáticas são incertos, mas esperados

Desertificação no Semiárido brasileiro.

As mudanças climáticas são consideradas eventos de “cisne verde”, pois correspondem a ameaças que os próprios humanos criam para eles mesmos. Cada vez mais, aumenta a previsibilidade de que os riscos se tornarão inevitáveis.

Embora os impactos das mudanças climáticas sejam altamente incertos, existe um alto grau de certeza de que alguma combinação de riscos físicos e de transição se materializará no futuro. Ou seja, apesar da incerteza radical predominante em relação ao momento e à natureza dos impactos das mudanças climáticas, há previsões que asseguram a necessidade de ações de mitigação ambiciosas.

Globalmente, existe uma enorme demanda por uma agenda de investimentos sustentáveis, que atenda a critérios ambientais, sociais e de governança.

Previsível é a probabilidade da combinação de riscos físicos (desastres provocados pelo clima e propagação de doenças) com riscos de transição (falências em massa de empresas que não se adaptaram aos impactos das mudanças climáticas).

2ª) As mudanças climáticas são mais graves que a maioria das crises financeiras sistêmicas

As catástrofes climáticas são ainda mais graves do que a maioria das crises financeiras sistêmicas. Eventos extremos relacionados ao clima podem representar uma ameaça à existência da própria espécie humana, como cada vez mais enfatizado pelos cientistas climáticos.

É por isso que as mudanças climáticas são consideradas mais graves que os grandes choques econômicos sistêmicos. Trata-se de um fenômeno físico, social e econômico, que envolve dinâmicas complexas e reações em cadeia.

Os riscos de eventos de “cisne verde”, relacionados ao clima, representam um potencial extremo de perturbar gravemente as economias, que podem estar por trás da próxima crise financeira sistêmica.

3ª) A crise climática é mais complexa do que choques de “cisne negro”

A complexidade relacionada às mudanças climáticas é de ordem superior a dos eventos de “cisne negro”: as complexas reações em cadeia e os efeitos em cascata, associados aos riscos físicos e de transição, podem gerar dinâmicas ambientais, geopolíticas, sociais e econômicas fundamentalmente imprevisíveis.

Há uma crescente percepção de que as mudanças climáticas são uma fonte de instabilidade financeira e de preços, pelos riscos físicos e de transição que acarretam. O aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos pode desencadear perdas financeiras e irreversíveis.

Impactos desproporcionais da crise sanitária e das mudanças climáticas

Os primeiros brasileiros que testaram positivo para a Covid-19 foram pessoas de melhores condições socioeconômicas, egressas de viagens para outros países, principalmente da Europa. Mas com a transmissão local (sustentada/comunitária), logo o vírus chega às camadas mais populares, com menos informação, recursos e limitação de acesso aos serviços de saúde.

Caso o governo brasileiro não adote medidas emergenciais efetivas para conter a disseminação do novo coronavírus, o efeito sobre as populações mais vulneráveis pode ser devastador. 

Os impactos das mudanças climáticas são desproporcionais entre e dentro dos países, afetando mais gravemente as populações vulneráveis. Os riscos e os custos de adaptação recaem desproporcionalmente aos países pobres. Sem uma indicação clara de como os custos e os benefícios das estratégias de mitigação das mudanças climáticas serão distribuídos de maneira justa, as reações sociopolíticas e a insegurança tendem a aumentar.

Essas mesmas pessoas vulneráveis correm maior risco se vírus letais, como o que provoca a Covid-19, chegarem às suas comunidades. Os governos dos países pobres estão menos preparados para conter o surto da doença.

No Brasil, caso não sejam adotadas medidas mais radicais para conter a disseminação do vírus e preservar a vida das pessoas, um pico de contaminação irá sobrecarregar o já deficitário Sistema Único de Saúde (SUS), provocando um maior caos na saúde pública.  

Que lições o Brasil deverá seguir na luta contra o coronavírus?

Na China, o presidente Xi Jinping adotou medidas radicais para conter o surto do novo coronavírus. Um exemplo foi a província de Wuhan, local de origem e epicentro da doença, onde a população foi colocada em total isolamento, desde 23 de janeiro. Não apenas essas pessoas foram sacrificadas pela situação de quarentena, como também o foram as ambiciosas metas de crescimento econômico da China, visando preservar a saúde e o bem-estar da população.

Para se ter uma ideia, após o feriado do ano novo chinês, os impactos do coronavírus fez com que as emissões de CO2 na atmosfera fossem reduzidas em 25%, na China. A produção industrial e a demanda por energia ficaram muito abaixo dos níveis usuais, em comparação com o mesmo período de duas semanas, após o feriado do ano novo chinês, em 2019.

Somente no dia 11 de março de 2020, o governo chinês anunciou que empresas relacionadas à economia nacional e à cadeia industrial global estavam liberadas para voltar ao trabalho. A epidemia foi controlada naquele país e a quarentena foi parcialmente desfeita.

O slogan da campanha do governo chinês é “Corrida contra o tempo, combate ao vírus”. De fato, na China, o tempo não foi favorável às medidas de emergência. Mesmo assim, o governo deu exemplo para o mundo inteiro sobre como adotar medidas radicais para proteger a população de uma infecção grave e ainda pouco conhecida, como a do novo coronavírus.

A Coreia do Sul foi um dos países onde também houve uma explosão inicial de casos de infecções por coronavírus. Porém, a intervenção radical do governo conseguiu conter o acelerado processo de contágio e a epidemia está controlada. Países como Taiwan e Singapura também agiram de forma exemplar para conter a epidemia de coronavírus. 

Os métodos empregados na Coreia do Sul, Taiwan e Singapura consitiram em diagnóstico precoce e rastreamento dos contagiados, além do mapeamento dos contatos dos infectados. As autoridades de saúde da Coreia do Sul instalaram postos de saúde ao longo das vias públicas, para que as pessoas fizessem o teste, em estilo drive-thru, sem precisarem nem mesmo sair do carro. Os resultados do exame eram recebidos pelo celular. 

A tecnologia da informação foi amplamente utilizada, nos três países asiáticos, para beneficiar os cidadãos. No caso da Coreia do Sul, foram desenvolvidos aplicativos de celular para rastrear as áreas onde se encontravam os infectados e os lugares por onde haviam passado. A solução permitiu certa vigilância ao comportamento das pessoas contaminadas e orientava os demais cidadãos a se protegerem do vírus. 

O Brasil não possui infraestrutura de saúde e recursos com capacidade para seguir tal modelo. Mas pode conter a proliferação do coronavírus informando melhor a população e indicando medidas de distanciamento social

Pode-se dizer que a origem da Covid-19, na China, assumiu características de um evento de “cisne negro” para aquele país, por ter sido inesperado, com alto impacto sobre a população e a economia.

Todavia, no caso dos demais países, como o Irã, a Itália, os Estados Unidos, o Brasil, entre outros, a chegada da doença já era previsível, por ser natural haver essa rápida propagação, em uma economia altamente globalizada. Assim, o coronavírus se tornou um evento de “cisne verde” para outros países fora do epicentro da doença e as medidas de contenção poderiam ser previstas.

Na contramão da corrida contra o tempo na China e na Coreia do Sul, houve, na Europa, demora para se tomar medidas de resposta mais radicais para conter o vírus. Na Itália, as ações de contingência contra o coronavírus foram tardias, provocando um enorme estrago e um cenário humano desolador.

Ali, já são mais de 156 mil casos confirmados de cidadãos infectados pelo novo coronavírus, e mais de 19 mil pessoas mortas, após contraírem a Covid-19. O exemplo da Itália mostra que paga-se um preço muito alto, com danos humanos imensuráveis, caso não se adotem medidas drásticas para conter a propagação do coronavírus.

Os Estados Unidos são o novo epicentro da pandemia, com cerca de 559 mil casos confirmados, tendo superado a marca de 22 mil mortes pela Covid-19.

Na Venezuela, onde o coronavírus já adentrou as fronteiras nacionais, o governo resolveu fechar na sexta-feira, dia 13 de março, escolas e universidades, de forma preventiva. No mesmo dia, o país começou uma quarentena nacional para evitar que a população seja contaminada. No momento de crise global, a Venezuela tomou medidas drásticas para evitar que o novo coronavírus afetasse o país. Nesta segunda-feira, dia 13 de abril, já foram confirmados 181 casos de contaminação na Venezuela. 

Rastro da doença pelo mundo mostra importância de medidas restritivas

A vida a um metro de distância, na luta contra o coronavírus. Foto: Angelo Carconiepa.

A atual crise sanitária, provocada pelo surto do novo coronavírus, não trará apenas pânico a uma população vulnerável, exposta ao perigo do transporte público lotado todos os dias. Os impactos econômicos já são avassaladores. O emprego está ameaçado pelo coronavírus, empresas podem ir à falência, diante do aprofundamento da crise. A vida das pessoas mais vulneráveis está em risco. Elas não dispõem dos recursos necessários para sua saúde, defesa e segurança, caso sejam contaminadas.

É claro que a Covid-19 afeta todas as categorias sociais. Porém, se a doença chegar com mais força às camadas mais populares, essas pessoas serão as mais afetadas por um surto de coronavírus.

O vírus chegou ao Brasil no dia 25 de fevereiro. Diante da proliferação de pessoas contaminadas pelo vírus, a estratégia mais eficaz será o País generalizar medidas mais firmes, tais como: proibir ou limitar aglomerações e movimentações de pessoas; cancelar eventos públicos, campeonatos esportivos e espetáculos culturais; suspender aulas em escolas e universidades; orientar a população sobre medidas de higiene e de distância social; fechar as fronteiras terrestres com outros países.

O Ministério da Saúde reconheceu na sexta-feira, dia 13 de março, que já há transmissão comunitária do vírus em São Paulo e no Rio de Janeiro. Tratam-se dos casos em que não é possível identificar a trajetória de infecção do vírus. Os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília já impuseram medidas restritivas para conter a proliferação do vírus, como recomendação de afastamento social e suspensão de aulas.

Com essas medidas, é possível contribuir para suavizar a altura da curva de transmissão do coronavírus no Brasil, fundamental para reduzir a pressão sobre o sistema público de saúde. “Achatar a curva” significa desacelerar a disseminação do vírus para que o número de casos se espalhe ao longo do tempo, ao invés de haver picos no início.

O gráfico a seguir mostra a orientação dos especialistas em saúde quanto à melhor forma de contenção dos casos de coronavírus. Observe que há uma "curva acentuada", causada por um pico acelerado de infecções, em oposição a uma "curva achatada", com casos mais distribuídos ao longo do tempo.

Fonte: Universidade de Washington. Ilustração: BBC.

A diferença dos países que conseguiram amenizar a altura da curva (pico de infecções por coronavírus) se deveu a medidas drásticas dos governos. Por isso, especialistas recomendam analisar o histórico da doença e observar o resultado das medidas eficazes de outros países.

Caso não sejam tomadas medidas drásticas para reduzir a transmissão do vírus, um pico de casos confirmados pode provocar caos nos sistemas de atendimento em saúde, além do desespero da população afetada.

No Brasil, enquanto cresce o número de pessoas contaminadas pela Covid-19, é importante mostrar uma preocupação maior com a proteção à vida da população do que com os impactos sobre a economia de possíveis medidas restritivas para conter a doença. Mudar o comportamento e conter a contaminação pelo novo coronavírus é o primeiro passo para o crescimento sustentado da economia.

Conclusão

As medidas de resposta ao surto de coronavírus, em países como a China, certamente salvaram muitas vidas, embora tenham paralisado temporariamente a sua pujante economia. É o caso também da Coreia do Sul, um dos países onde houve transmissão mais acelerada, depois da China. A própria Venezuela foi bastante agressiva ao declarar medidas restritivas para que o coronavírus não impacte o país.

No Brasil, alguns estados já adotam medidas mais radicais para promover o distanciamento social e evitar a transmissão acelerada do coronavírus. Acredita-se que essa é a tendência, recomendada por especialistas, parar atividades no País para controlar a epidemia. É uma forma de evitar o caos e a sobrecarga no sistema de saúde, que um pico de contaminações poderá provocar.

Espera-se que o Brasil utilize exemplos bem-sucedidos do combate à doença pelo mundo, com medidas restritivas, o mais cedo possível, para salvar a vida de muitos brasileiros. 

Os impactos globais do coronavírus chamam atenção também para a necessidade de medidas de mitigação contra as mudanças climáticas. As consequências de uma crise relacionada ao clima seriam mais drásticas do que a atual situação com a Covid-19.

Você acha que a resposta do Brasil ao novo coronavírus está sendo bem conduzida? Na sua opinião, que medidas devem ser adotadas? Você concorda com uma maior restrição para conter a contaminação?

*Atualizado em: 13.04.2020, às 14h02. 

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