Radiografia da seca nos estados do Nordeste, em janeiro de 2020


Por Letras Ambientais
sexta, 03 de janeiro de 2020

Foto: EBC.


O ano de 2020 começou e, nos últimos quatro dias, quase todos os estados do Nordeste já receberam as primeiras chuvas da pré-estação. Em geral, são chuvas fracas, embora na Bahia, Sergipe, Ceará e Maranhão tenha havido registros de precipitações mais fortes.

A nossa primeira postagem do ano novo é uma atualização do panorama da seca nos estados do Nordeste brasileiro. A seca continua predominando na maior parte dos municípios da região, bem como do Semiárido brasileiro.

É o que mostra a atual radiografia da seca, em mapas, feita a partir de imagens de satélites, processadas pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis). Também foram utilizadas informações de clima e tempo fornecidas pelo Laboratório.

A umidade dos solos é uma variável importante para o crescimento das plantas e para a produtividade agrícola, principalmente em condições de seca. Por ser um indicador da condição de seca em determinada região, os mapas da umidade dos solos estão entre as ferramentas mais adequadas para se mensurar o atual percentual de água no solo.

Confira, a seguir, a análise do mapa de cada estado do Nordeste, com base nos dados de monitoramento mais recentes, do Lapis, referentes à última semana de dezembro. A análise também utilizou informações do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Defesa Civil nacional.

1) Alagoas

Em Alagoas, cerca de 87% dos municípios enfrentam intensa seca atualmente, com umidade dos solos abaixo de 10%, na maioria das localidades. No total, são 89 municípios secos no Sertão, no Agreste e em parte do Leste Alagoano. As recentes chuvas que têm ocorrido em Alagoas tendem a mudar esse cenário nos próximos dias.  

Segundo a Defesa Civil nacional, um total de 39 municípios de Alagoas foram reconhecidos em Situação de Emergência, por conta da estiagem. Esse status facilita a obtenção de recursos federais para ações de mitigação dos efeitos da seca. Porém, estará em vigor somente até o próximo dia 21 de janeiro de 2020.

Com o fim da vigência do reconhecimento, deverá ser avaliada a condição de seca em cada um desses municípios. A depender da situação, poderá ser possível solicitar a renovação desse status que garante mais recursos para o enfrentamento da seca no estado.

2) Bahia

Na Bahia, um total de 75% dos municípios enfrentam intensa seca, com situação de umidade dos solos abaixo de 10%, em quase todo o estado.

Por enquanto, apenas no Sul Baiano, na Região Metropolitana de Salvador e em alguns pequenos municípios do Centro Sul Baiano, não há registro de seca.

Nos últimos dias, têm caído chuvas com volumes significativos em algumas áreas da Bahia. A previsão climática para o trimestre indica boas chuvas para aquele estado e para todo o Nordeste. Para ler a previsão climática completa para este trimestre, neste post

Assim, a tendência é melhorar o percentual de umidade dos solos e favorecer o cultivo agrícola, inclusive nas áreas que fazem parte do Matopiba (área de Cerrado formada por territórios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, considerada a última fronteira agrícola do Brasil). Para saber mais sobre o Matopiba, leia este post.

O mapa abaixo mostra a previsão de chuvas acumuladas, no período de 03 a 06 de janeiro, na região do Matopiba, onde serão registrados maiores volumes de precipitação.

Chuvas em Matopiba, no período de 03 a 06 de janeiro de 2020. Fonte: Lapis.

Chuvas em Matopiba, no período de 03 a 06 de janeiro de 2020. Fonte: Lapis.

De acordo com a Defesa Civil nacional, 190 municípios estão reconhecidos em Situação de Emergência, por conta de seca e estiagem.

Desde os últimos dias de 2019, as chuvas que ocorreram em algumas áreas da Bahia têm reduzido a intensa seca que afeta o estado.

3) Ceará

No Ceará, cerca de 97% dos municípios enfrentam seca, totalizando 179 das localidades. O mapa acima mostra que a seca atinge praticamente todo o estado, onde a umidade dos solos está abaixo de 10%, considerada muita baixa.

De acordo com a Defesa Civil nacional, um total de 44 municípios cearenses está em Situação de Emergência, em função de seca ou estiagem.

Mas desde os últimos dias de 2019, chuvas significativas ocorreram em algumas áreas do Ceará, reduzindo a intensa seca que afeta o estado.

4) Maranhão

No Maranhão, cerca de 84% dos municípios enfrentam seca intensa ou moderada, na última semana, totalizando 182 das localidades. As áreas mais afetadas pela seca é o Sul, Centro e Leste Maranhense.

Apesar de a seca afetar muitos municípios maranhenses, não há reconhecimentos vigentes de Situação de Emergência para municípios do Maranhão, em razão de seca ou estiagem.

Nos últimos dias, foram registradas chuvas significativas naquele estado, o que certamente irá reduzir a situação da seca nos municípios.

5) Paraíba

Na Paraíba, todos os municípios enfrentam seca atualmente. Em cerca de 97% deles, houve registro de seca forte, enquanto a seca moderada atingiu 3% das localidades. O mapa acima mostra que, até mesmo os municípios da Zona da Mata, do Agreste paraibano, foram afetados pela condição climática de seca.

De acordo com a Defesa Civil nacional, um total de 177 municípios da Paraíba receberam o reconhecimento de Situação de Emergência, por conta da estiagem. O status de emergência ficará em vigor até 28 de março de 2020.

Nos últimos dias, têm caído chuvas fracas em alguns municípios da Paraíba, podendo contribuir para reduzir a seca e melhorar a umidade dos solos no estado.

6) Pernambuco

Em Pernambuco, cerca de 96% dos municípios enfrentam seca intensa ou moderada. Apenas em 7 municípios da Zona da Mata, a umidade dos solos estava em torno de 20 a 30%, considerada favorável.

Segundo dados da Defesa Civil nacional, 120 municípios pernambucanos obtiveram o reconhecimento de Situação de Emergência, por ocasião de seca ou estiagem. Todavia, alguns desses municípios terão seu status de emergência encerrado já neste mês de janeiro.

Nos últimos dias, alguns municípios de Pernambuco têm recebido chuvas que, apesar de fracas, poderão reduzir um pouco da secura nos solos de determinadas áreas do estado.

7) Piauí

No Piauí, todos os municípios enfrentam seca intensa, com umidade dos solos inferior a 10%, considerada muito baixa.

Por outro lado, apenas 18 municípios foram reconhecidos em Situação de Emergência, pela Defesa Civil nacional. Isso significa que somente 8% dos municípios piauienses tiveram acesso a recursos públicos federais para ações de contingência aos impactos da seca. Mesmo assim, alguns desses poucos municípios já terão seus reconhecimentos encerrados neste mês de janeiro.

O Piauí recebeu apenas chuvas fracas nos últimos dias, que podem reduzir um pouco a situação de seca.

8) Rio Grande do Norte

No Rio Grande do Norte, quase todos os municípios enfrentam seca atualmente. Nessas localidades, o percentual de umidade dos solos estava abaixo de 10%, considerado muito baixo.

Em apenas 6 municípios potiguares, não houve registro de seca. Isso significa que 96% dos municípios estavam em uma condição crítica de seca.

Mas diferentemente do Piauí, um total de 133 municípios do Rio Grande do Norte obteve reconhecimento de Situação de Emergência, pela Defesa Civil nacional. O prazo de vigência dessa condição será até março de 2020.

O número corresponde a cerca de 80% dos municípios do Rio Grande do Norte, reconhecidos em emergência e recebendo recursos federais, para ações de mitigação dos impactos da seca.

9) Sergipe

Em Sergipe, a seca atinge cerca de 76% dos municípios, totalizando 57 localidades. As áreas atingidas pela seca são Sertão, Agreste e também alguns municípios do Leste sergipano.

De acordo com a Defesa Civil nacional, apenas 9 municípios de Sergipe obtiveram reconhecimento da condição de Situação de Emergência. O número corresponde a apenas 15% das localidades que enfrentam seca atualmente.

O estado de Sergipe é um dos poucos do Nordeste que receberam chuvas fortes, em algumas áreas, nos últimos dias.

Fenômenos climáticos trazem chuvas para o Nordeste, a partir de janeiro

chuvas no Nordeste, no começo de 2020

Chuvas no Nordeste, no começo de 2020. Fonte: Lapis.

De acordo com o Lapis, em algumas áreas do Nordeste, o ano novo já começou com chuvas, em função da formação de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), bem como de um Cavado profundo, configurado sobre o Nordeste brasileiro e o oceano Atlântico Sul. Ambos os fenômenos são decorrentes do fenômeno Alta da Bolívia.

Com certa frequência, o Cavado se fecha, configurando um VCAN. Este sistema forma-se próximo ao Nordeste brasileiro, em função da intensificação da Alta da Bolívia, que também torna mais forte o Cavado sobre o oceano Atlântico. Leia, neste post, mais informações sobre os fenômenos que trazem chuvas para o Nordeste. 

Na primeira semana do ano, as chuvas no Nordeste também foram beneficiadas pela média das temperaturas das águas do Atlântico Sul, que voltaram a ficar aquecidas. Dessa forma, intensificou-se o Dipolo do Atlântico, favorecendo a atuação de fenômenos que provocam chuvas no Nordeste brasileiro, como é o caso do deslocamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).

O Dipolo se forma quando a temperatura das águas do Atlântico Sul estão aquecidas e as do Atlântico Norte resfriam. Esse cenário contribui para trazer chuvas à região Nordeste. A previsão é que a ZCIT atue mais fortemente a partir de fevereiro.

Conclusão

As imagens de satélites analisadas, neste post, mostraram o aumento da extensão da seca, durante o mês de dezembro, sobre os municípios do Nordeste brasileiro. 

Em alguns estados, a seca generalizou-se sobre praticamente todos os municípios. Foi o caso da Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte.

Chama atenção que, em alguns estados, apesar da extensão e gravidade da seca, poucos municípios obtiveram o reconhecimento de Situação de Emergência. Este status é fundamental para garantir recursos públicos emergenciais para o enfrentamento dos impactos da seca.

A ausência de planos de contingência para atravessar a seca, na maioria dos municípios brasileiros, especialmente do Semiárido, ainda é um dos grandes gargalos na região.

A falta de planejamento limita as ações e as ferramentas para se mitigar os impactos do desastre. Sem planejamento, até mesmo as ações emergenciais são incompletas e insuficientes, como está ocorrendo em vários estados do Nordeste brasileiro.  

Mais informações

Para ter acesso ilimitado às imagens do satélite Meteosat-11 e monitorar, em tempo real, os fenômenos meteorológicos que atuam no Brasil, recomendamos acessar a página do Lapis

Para uma análise completa sobre a condição climática do Nordeste, indicamos a leitura do Livro “Um século de secas”. Acesse aqui a página do Livro.

Leia a previsão climática para o Nordeste e as demais regiões brasileiras neste post. 

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