Recuperação verde da economia reduzirá fortemente mudanças climáticas


Emergência climática afeta as pessoas de várias maneiras.


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Hoje, vamos iniciar uma nova seção de divulgação científica, chamada “Ciência de Interesse Público”. O objetivo é focar na popularização de temas científicos, relacionados às mudanças climáticas, com debates que se tornaram cruciais na atualidade.

Decidimos adotar essa nova abordagem, em razão do quanto os temas ambientais, especialmente as mudanças climáticas, ainda assumem, na prática, pouca importância, ou parecem abstratos demais, na pauta da sociedade brasileira.

Acreditamos que, mais do que encontrar ameaças, uma nova forma de percepção, em relação às mudanças climáticas, pode nos levar a descobrir grandes oportunidades, nas novas transformações.

Convido você a juntar-se a nós, na construção da sustentabilidade global, no período pós-pandemia. Confira, a seguir, o primeiro artigo sobre mudanças climáticas e recuperação econômica.

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O coronavírus desacelerou as atividades humanas de todo o Planeta, impondo restrições sem precedentes à circulação de pessoas e ao nosso comportamento. Nos primeiros meses da pandemia, manchetes de jornais do mundo inteiro destacavam, com otimismo, a redução da poluição nas grandes cidades. Mas esse desvio aos poucos retorna ao seu ritmo quase normal.

É inegável que a resposta global à pandemia levou a uma redução repentina das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e de outros poluentes atmosféricos, causadores das mudanças climáticas. Mas uma pergunta curiosa é estimar qual será, de fato, o real impacto desse bloqueio, na desaceleração do aquecimento global. Afinal, a dramática Covid-19 terá impactos climáticos globais positivos, no longo prazo?

Até recentemente, não tínhamos essa resposta. Mas uma pesquisa publicada no mês de agosto, no periódico Nature Climate Change, por cientistas do Reino Unido, analisou se as restrições impostas pela pandemia irão reduzir o aumento das temperaturas do Planeta.

Foram utilizados grandes conjuntos de dados de qualidade do ar de superfície, associados a dados de mobilidade (fornecidos pelo Google, Apple e outras fontes de dados nacionais). As simulações foram feitas com uso de modelos climáticos.

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As reduções das emissões globais de dióxido de carbono (CO2), oriundos de combustíveis fósseis, foram estimadas para seis setores, durante o período de fevereiro a junho de 2020. São eles: transporte de superfície, residencial, energia, indústria, público e aviação.

Desde o último mês de julho, a pandemia atingiu 188 países. Isso levou a restrições impostas e voluntárias sem precedentes, sobre viagens e trabalho. Por sua vez, o risco de contágio da Covid-19 levou à redução das emissões de GEE e de outros poluentes atmosféricos. 

Em meados de abril de 2020, as reduções nas emissões provavelmente atingiram o pico. A análise de dados de circulação mostrou que a mobilidade diminuiu 10% ou mais, durante esse mês, em 125 países, rastreados por sistemas operacionais de telefone.

Mudanças nas localizações dos dispositivos móveis, baseadas em dados do Google e da Apple, além de outras fontes de dados nacionais, indicaram que mais de 50% da população mundial reduziu as viagens, em cerca de 50%, durante abril deste ano.

A queda na poluição do ar foi observada a partir de dados de satélite e de observações terrestres locais. Mas foi um efeito temporário, pois os níveis de poluição já estão voltando ao normal, na China e em outros países da Ásia.

Pandemia quase não teve impacto na redução do aquecimento global

Calor em São Paulo leva população ao parque Ibirapuera.

Forte calor em São Paulo leva população ao parque Ibirapuera. Fonte: Agência Brasil.

Para avaliar a resposta da temperatura às restrições da pandemia, foram considerados diferentes cenários, incluindo uma recuperação com uso de combustíveis fósseis e dois cenários diferentes de estímulo verde (levando-se em conta uma política forte e medidas moderadas de recuperação verde).

O resultado da pesquisa mostrou que, no médio prazo, a resposta impulsionada pela pandemia terá apenas um impacto insignificante na redução das temperaturas globais.

Em comparação com o cenário que segue as políticas nacionais atuais, a pandemia terá causado, em 2030, um resfriamento irrisório no clima do Planeta, que pode variar de 0,01 a 0,005 °C. Essa projeção foi considerada desprezível pelos pesquisadores, diante do enorme desafio, das atuais e futuras gerações, de contenção das emissões de poluentes na atmosfera.

No mesmo estudo dos pesquisadores britânicos, foram estimados cenários com estímulos de recuperação verde da economia. A conclusão é que efeitos duradouros de redução das temperaturas globais irão depender da estratégia de recuperação pós-pandemia, adotada no médio prazo.

Nos quatro cenários avaliados, os pesquisadores projetaram a resposta climática esperada, a partir de 2030, de acordo o nível de emissões de gases de efeito estufa e poluição do ar, possibilitado pelas medidas de contenção adotadas nos diferentes países.

De um lado, foram consideradas restrições nas emissões, somente durante os anos de 2020-2021, por conta do novo coronavírus. Também foi analisado um cenário de recuperação econômica, que mantenha os atuais investimentos em adaptação/mitigação, com tendência de aumento do uso de combustíveis fósseis.

De acordo com as projeções, ambos os cenários provavelmente irão exceder, em 2050, o limite de 1,5 °C, acima do limite pré-industrial, na temperatura do Planeta. Há uma probabilidade superior a 80% de isso ocorrer.

Por outro lado, as outras duas possibilidades consistem em escolher um caminho de recuperação econômica, impulsionado por um pacote de estímulo verde (aproximadamente 1,2% do Produto Interno Bruto global), com redução dos investimentos em combustíveis fósseis.

Nesses cenários, há uma boa chance (estimada em cerca de 55% de probabilidade) de manter a mudança de temperatura global dentro do limite de 1,5 oC, acima do período pré-industrial, alcançando, assim, a meta projetada pelo Acordo de Paris. Dessa forma, será possível evitar um aquecimento futuro de cerca de 0,3 oC, até 2050 (0,2 °C para uma recuperação econômica, com estímulo verde moderado).

A bandeira verde da recuperação econômica

Seca no Centro-Sul aumenta incêndios no Pantanal.

Seca no Centro-Sul aumenta incêndios no Pantanal.

A pesquisa mostrou que mesmo a drástica mudança global em nosso comportamento, durante o período relativamente curto da pandemia, só levará a reduções modestas na tendência de aquecimento do Planeta. Esses resultados destacam a necessidade de descarbonização, no longo prazo, de todo o sistema econômico planetário. 

Os cientistas ressaltam que a escolha do caminho de recuperação econômica, após a pandemia, afetará fortemente a trajetória de aquecimento, em 2050. A busca por uma recuperação de estímulo verde, a partir da crise econômica pós-pandemia, pode colocar o mundo no caminho para alcançar a meta prevista no Acordo de Paris.  

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Outro avanço importante do estudo foi utilizar dados de big data, relacionados à mobilidade, para desenvolver um novo método de análise das emissões de GEE e outros poluentes na atmosfera.

Os cientistas britânicos lançaram mão do benefício do fácil acesso a esses dados para analisar, quase em tempo real, a situação global, a partir da realidade dos diferentes países, durante o mesmo período.

O desenvolvimento socioeconômico e as mudanças climáticas estão intimamente ligados, com as atividades socioeconômicas determinando o nível de emissões, mediante a forma de uso da energia e da terra, que influenciam nas mudanças climáticas. Por sua vez, as mudanças climáticas determinam os impactos que, por sua vez, afetam o desenvolvimento socioeconômico.

Por essa razão, definir as estratégias de resposta à crise, no período pós-pandemia, com foco no caminho da recuperação verde, será decisivo para garantir a sustentabilidade global.

Nessa encruzilhada, caberá a nós, enquanto sociedade, refletirmos sobre nossas escolhas, na direção de gestores de políticas adequadas à mitigação e adaptação às mudanças climáticas e à manutenção da sustentabilidade planetária.

Como dizia o visionário economista Celso Furtado, ainda nos anos 1970, a economia não pode ignorar as consequências dos processos irreversíveis de degradação do meio físico, em razão do desenvolvimento.

Segundo ele, o futuro está, em grande parte, condicionado pelas decisões que já foram tomadas no passado e/ou estão sendo tomadas no presente. Há uma interdependência entre o futuro e o passado. As correções de rumo tornam-se cada vez mais lentas e tendem a exigir maior esforço.

Leia aqui o artigo completo.

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