As 9 medidas essenciais para a recuperação verde da economia



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Um dos fatos que mais marcaram a trajetória de Celso Furtado, um dos maiores pensadores da economia, no século XX, foi assistir à situação da Europa devastada, depois da Segunda Guerra Mundial. Foi no contexto pós-guerra que o economista conheceu as inovadoras técnicas de planejamento, desenvolvidas pelos governos europeus, para a recuperação econômica dos países.

Naquela época, Furtado percebeu uma grande oportunidade para países subdesenvolvidos, a exemplo do Brasil, superarem sua condição de dependência, em relação às economias centrais. Para ele, isso seria possível a partir do planejamento econômico, coordenado por uma estratégia governamental, baseada na valorização dos recursos naturais do País.

Pela sua trajetória, poucos economistas estariam mais aptos, do que Celso Furtado, a indicar caminhos, diante da atual encruzilhada que enfrentamos para saída da crise. Embora não surpreendesse que, se ainda estivesse entre nós, Furtado fosse mais uma vez rechaçado, por razões políticas, como aconteceu em 1964, quando teve seus direitos políticos cassados.  

Além da devastação econômica, provocada pela atual pandemia, e do aprofundamento do fosso das desigualdades sociais no Brasil, não podemos esquecer que estamos diante de uma situação de risco de colapso climático. Esses desafios contemporâneos requerem uma estratégia inovadora, para superação da crise, impondo-se a proposta de recuperação verde da economia.

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Organização mundial alerta para emergência climática global

Nesta segunda-feira, dia 23 de novembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) chamou atenção que estamos diante de uma emergência climática global. O alerta foi feito depois que a entidade constatou o aumento recorde das emissões de gases de efeito estufa, em 2020, mesmo no cenário de pandemia.

Além disso, evidenciou-se um preocupante aumento das emissões como um todo, ou seja, não apenas de CO2, mas também de metano, óxido nitroso e outros poluentes.   

O corte de emissões este ano, devido à paralisação de viagens e outras atividades econômicas, foi estimado entre 4,2% e 7,5%. Apesar disso, a média de emissões de dióxido de carbono (CO2), para setembro, na estação de referência de Mauna Loa, no Havaí, foi 411 ppm, diante de 408 ppm, no mesmo mês do ano passado.

Situação semelhante também foi observada em Cape Grim, na Tasmânia (Austrália), com aumento de 410 ppm, em relação à 408 ppm, em 2019.

Tal fato deveria colocar a proposta de recuperação verde da economia, no centro das discussões dos governos, de todo o mundo. Ou seja, há uma grande oportunidade para se alinhar pacotes de resgate econômico, para lidar com a pandemia do novo coronavírus, com metas do Acordo climático de Paris.

Mas afinal, como poderia ser um bom plano de recuperação verde? Que medidas os governos poderiam adotar, para recuperar o crescimento econômico, reduzindo o desemprego e o risco de colapso climático? É o assunto que iremos tratar ao longo deste post.

Países como o Reino Unido, bem como a União Europeia, especialmente França e Alemanha, anunciaram um plano de recuperação verde da economia, baseado no impulso para o crescimento econômico de baixo carbono.

Por outro lado, países como Rússia, Arábia Saudita e Turquia continuam a alimentar a indústria de combustíveis fósseis. Em outros, como a Coreia do Sul, EUA e China, medidas verdes de resgate econômico nacional, foram superadas pelos elementos de alto teor de carbono, incluindo auxílios a empresas de combustíveis fósseis ou indústrias intensivas em carbono.

Especialistas indicam um conjunto de medidas comuns que podem ser adotadas, por governos de diferentes países, para promover a recuperação verde, em suas respectivas economias nacionais.

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Essas plataformas permitem que os países abandonem os combustíveis fósseis e implementem sistemas de baixo carbono, gerando empregos e desacelerando a iminência da crise climática. As áreas estratégicas serão analisadas a seguir

1) Eficiência energética

Reduzir o consumo de energia elétrica, a partir de ações para melhorar a eficiência energética, pode fazer diferença significativa na redução das emissões de poluentes. É o caso da adaptação na estrutura das moradias e substituição de aparelhos domésticos, para reduzir a necessidade de aquecimento ou refrigeração.

Para tornar essas mudanças viáveis, o governo deve atuar com incentivos, para que pessoas e empresas adotem iniciativas mais sustentáveis em suas moradias.

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2) Infraestrutura para recarga de veículos elétricos


Com o crescimento da população, o transporte é uma fonte crescente de emissões de carbono, responsável por grande da parte da poluição nas cidades.  Essa poluição afeta diretamente a saúde pública, pois pelo menos 4,5 milhões de pessoas morrem prematuramente, por ano, em todo o mundo, por respirar um ar com padrões inadequados de qualidade.  

A troca de carros, movidos a combustíveis fósseis, por veículos elétricos, já é uma realidade possível e é capaz de reduzir drasticamente esses problemas. Os custos mais baixos com combustíveis têm tornado o acesso aos veículos elétricos mais viável.

Porém, a decisão por adotar um veículo elétrico depende de investimentos em uma infraestrutura de estações de recarga. Disponibilizar uma ampla rede de carregamento é essencial, pois a ausência do acesso facilitado a esses equipamentos ainda retarda a decisão pelo veículo movido a energia elétrica.

Esse trabalho também exige muita mão-de-obra, com uma mistura de trabalhos de alta e baixa qualificação necessários, e proporcionaria benefícios de longo prazo nas cidades, como geração de emprego e renda.

3) Ampliação do acesso à banda larga


A pandemia, a situação de lockdown, a paralização de escolas e universidades, bem como a ampliação do trabalho remoto, colocaram em evidência o desafio do acesso universal a redes de internet banda larga.

A pandemia levou à explosão de reuniões e videoconferências, em todo o mundo. Porém, a baixa velocidade da internet ainda é um problema para significativa parte da população, sobretudo das minorias sociais e étnicas.

Estudantes e trabalhadores, que vivem nas periferias das grandes cidades, ou em áreas rurais remotas, foram os grupos mais prejudicados, aprofundando o perverso fosso da desigualdade social no acesso à educação.

Nessas áreas, é mais caro instalar os cabos necessários à internet de alta velocidade. Oferecer infraestrutura universal de acesso à banda larga ajudaria mais pessoas a trabalhar em casa, proporcionaria benefícios sociais e ambientais, melhoria o trânsito e reduziria a necessidade de deslocamentos.

A atuação conjunta de governos e empresas, para tornarem essa tecnologia disponível, a um custo acessível, também requer a implantação de infraestrutura que pode gerar emprego e dinamizar a economia, além de outras vantagens já citadas.  

4) Construção de infraestruturas verdes nas cidades

Existem soluções da natureza que podem mudar o futuro das cidades, reduzindo o impacto da mudança climática. Essas ações receberam pouca atenção no passado, mas há um movimento crescente, em todo o mundo, para restaurar as paisagens e conter as emissões de carbono na atmosfera. 

O conceito de infraestruturas verdes tem sido adotado como política pública, em alguns países da Europa, para tornar as cidades mais resilientes e adaptadas aos impactos da mudança climática.

Consiste em uma rede estrategicamente planejada, de zonas naturais e seminaturais, com adaptação à mudança climática, gestão de recursos hídricos, prevenção do risco de desastres naturais e bem-estar da população.

Redes de infraestruturas verdes podem ser desenvolvidas para apoiar a proteção contra inundações, erosão, incêndio florestal, melhoria da qualidade da água e do ar, a biodiversidade e a migração de espécies, a adaptação à mudança climática, entre outras funções. As infraestruturas cinzentas tradicionais continuam a ser necessárias, mas podem ser reforçadas, de forma moderna e inovadora, com soluções baseadas na natureza.

As áreas verdes nas cidades podem ser utilizadas para reduzir a quantidade de águas da chuva que entram nas redes de esgotos convencionais e, em última instância, nos lagos, rios e ribeiros. Isso ocorre graças às capacidades naturais de retenção e absorção que têm a vegetação e os solos.

Os benefícios das infraestruturas verdes podem incluir também, nesse caso, um maior sequestro de carbono, a melhoria da qualidade do ar, a atenuação do efeito de ilha térmica urbana e a criação de mais espaço, para acolher habitats de flora e fauna selvagens. Além disso, os espaços verdes também oferecem oportunidades de recreação ou atividades de lazer. 

>> Leia também: Cidades sustentáveis - fim dos problemas urbanos do Brasil?

5) Criação de infraestruturas resilientes a extremos climáticos

Em alguns locais, os impactos da mudança climática serão inevitáveis e alguns já são evidentes. É o caso do aumento das secas, enchentes, inundações, ondas de calor, tempestades, deslizamentos e aumento do nível do mar.

As populações mais pobres são as mais vulneráveis à crise climática. É por isso que as medidas de mitigação à mudança climática devem ter alta prioridade, nos países de média e baixa renda.

É por isso que os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa devem ser acompanhados por medidas de mitigação, para construir nossa resiliência, a condições climáticas extremas. 

Mudanças na infraestrutura serão necessárias, como redes de transporte, comunicações, água e energia, para que possam sobreviver a inundações, ondas de calor e secas.

As estratégias de proteção contra enchentes também devem ser prioridade, para os países ao redor do mundo, sobretudo os que têm probabilidade de receber chuvas mais intensas e tempestades mais violentas.

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6) Remodelagem das cidades


A situação de pandemia chamou atenção para uma nova realidade, possível às cidades, com menos tráfego de veículos automotores, nas ruas e rodovias.

Priorizar a construção de infraestruturas de baixo carbono, nas áreas urbanas, pode incluir obras de ciclovias, pistas para caminhada e outros meios de deslocamento de baixo impacto.

As vantagens dessa estratégia proporcionam a geração de emprego, no curto prazo, em muitos centros urbanos, economia no sistema de assistência em saúde, no longo prazo, além de um ambiente mais seguro.

Caminhar e andar de bicicleta são muito mais fáceis, quando há menos carros, ou quando o tráfego motorizado é melhor administrado.

>> Leia também: As 6 soluções da natureza que mudarão o futuro das cidades

7) Construção de redes elétricas renováveis

Nos últimos anos, as tecnologias para energia solar e eólica caíram drasticamente de preço, tornando-as mais competitivas, ou até mais baratas do que a eletricidade com combustível fóssil, em muitos países. Este ano, houve um crescimento recorde na geração de eletricidade renovável, mesmo durante a crise da pandemia da Covid-19.

Construir um padrão energético limpo, baseado em energias renováveis, deve ter máxima prioridade, pelos inúmeros benefícios que propiciam aos países. Além da redução imediata das emissões, a instalação de sistemas de energia solar, eólica e marítima, permite a recuperação da economia, pelo grande potencial de geração de empregos.

Por isso, é importante remodelar o setor de energia, reduzindo o papel das fontes de combustíveis fósseis e ampliando as redes de transmissão de energia renovável. Mais eletricidade renovável, por vezes de fontes intermitentes, significará uma revisão da rede elétrica em muitos países. 

8) Resíduos sólidos, reciclagem e uso de recursos

O uso de máscaras e outros equipamentos de proteção individual (EPI’s), em 2020, em razão do novo coronavírus, tornou evidente as toneladas de plástico descartado, todos os dias, pela maioria da população mundial. É uma oportunidade sem precedentes para se retomar a pauta da reciclagem de resíduos sólidos, bem como nossa relação com o consumo de recursos.  

Já existe tecnologias disponíveis, para reciclagem de resíduos sólidos, que podem ser adaptadas à redução do descarte inadequado de plástico, metais, eletrônicos, entre outros materiais.

A coleta de lixo impede que atinja cursos de água e o mar, onde pode prejudicar a vida selvagem e contaminar a própria alimentação humana. Além do impacto ambiental, a reciclagem também gera benefícios sociais imediatos, pois pode ser lucrativa e fornecer empregos qualificados e semiqualificados, em uma indústria estável e de longo prazo.

9) Hidrogênio, captura e armazenamento de carbono e energia nuclear


Além de investir em tecnologias já consolidadas, como as energias renováveis, e na melhoria da eficiência energética, os países deveriam também priorizar pesquisas, para desenvolver e aumentar a escala de novas formas de energia.

É o caso do hidrogênio, combustível de baixo carbono, que pode substituir o gás natural e fornecer solução ao problema do transporte marítimo. Como mostramos neste post, a indústria naval é uma das maiores poluentes do mundo e uma grande oportunidade para a redução das emissões.  

Incentivos governamentais ainda são necessários, para expandir o desenvolvimento dessa tecnologia, embora alguns países já considerem como capitalizar o potencial do combustível.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), as metas previstas pelos países, para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, estão longe do que será necessário, para conter o ritmo de aquecimento global. Elas representam apenas 15% do esforço esperado, para cumprir o Acordo de Paris.

Por isso, investir na tecnologia de captura e armazenamento de carbono pode ser uma estratégia viável, diante da atual emergência climática global.

Conclusão

A recuperação verde da economia, no período pós-pandemia, é uma grande oportunidade, para minimizar o risco de um colapso climático, impulsionar a economia e reduzir as perversas desigualdades sociais, que pioraram muito depois da pandemia.  

Essa estratégia requer dos gestores de políticas priorizar a energia renovável, transporte verde, restauração da natureza e outros projetos ambientalmente benéficos.

Segundo a IEA, cerca de 9 milhões de novos empregos poderiam ser criados globalmente, no próximo ano, se os países seguirem um caminho de recuperação verde da economia. Para isso, será necessária uma estratégia coordenada, de construção de infraestruturas de baixo carbono, com políticas que melhorem o bem-estar da população e permitam o crescimento sustentável da economia. 

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