Como o La Niña afetará a agricultura brasileira, nos próximos meses?


La Niña forte no oceano Pacífico.


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O mês de novembro começou e o La Niña continua a influenciar o clima nas regiões brasileiras. O efeito desse fenômeno será mais forte durante o verão, que só começa em 21 de dezembro. A perspectiva é de que o ápice do fenômeno ocorra no período de dezembro deste ano até fevereiro de 2021.

Neste post, iremos analisar a previsão climática para cada região do País, a partir de novembro de 2020, com foco na influência do La Niña. As informações meteorológicas foram fornecidas pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), que acompanha a evolução do atual La Niña, desde a formação do fenômeno. 

Nos próximos meses, o La Niña deve se intensificar, com tendência de diminuição somente no período de março a maio de 2021. Ele costuma durar de seis a oito meses, mas às vezes permanece presente por até um ano. A última vez que houve um evento forte desse fenômeno foi em 2010-2011.

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O que esperar da influência do La Niña nas safras?

Em novembro, o resfriamento do Pacífico equatorial persistiu e se tornou ainda maior. Atualmente, a temperatura daquela área oceânica está em torno de -1,4 °C. A tendência é de que o declínio seja ainda maior, nas próximas semanas.

Com a constante queda das temperaturas do Pacífico, o La Niña ganhou mais força. Dessa forma, o fenômeno já está no limite da categoria de moderado (-1 °C a -1,4 °C), e logo deverá se tornar de intensidade forte (-1,5 °C a -1,9 °C).

Sabemos que o La Niña, historicamente, traz clima seco para o Centro-Sul. Essa é uma tendência, embora nem todos os eventos de La Niñas tenham tido esse impacto.

Nas últimas duas vezes que o fenômeno ocorreu – com força em 2010-2011 e, de forma mais amena, em 2017-2018 –, o Brasil teve pouca perda nas safras. O La Niña geralmente é menos prejudicial que o El Niño, pois tende a distribuir mais chuva pelo Brasil. Esse efeito do La Niña é particularmente importante para o Semiárido brasileiro, que atualmente enfrenta forte seca.

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Por outro lado, caso se confirme a tradicional tendência de estiagem no Centro-Sul, será um risco para a produção agropecuária. Uma safra menor no Brasil poderá reduzir a oferta global de alimentos e ajudar a determinar se o mercado terá superávit ou déficit, no final da safra de 2020-2021. No entanto, ainda está indefinida qual será a intensidade do fenômeno La Niña, no verão e outono que está por vir.

A diferença de opiniões entre os especialistas se apoia em qual será o real impacto do atual La Niña para a região Sul, no fim deste ano e início de 2021. Caso seja desfavorável, ou seja, com predomínio de seca, poderia colocar em risco o rendimento das lavouras de grãos, em importantes estados produtores, como Paraná e Rio Grande do Sul.

Modelos climáticos mais recentes indicam intensificação do La Niña. Uma das consequências são chuvas abaixo da média, no Centro-Sul, e temperaturas mais baixas. Essa situação climática poderá afetar a agricultura, especialmente as lavouras de soja e milho. Vale lembrar que o início do plantio da soja já sofreu atraso, em razão da estiagem.

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>> Leia também: Como o La Niña afetará o clima em outubro de 2020?

Previsão climática para as regiões brasileiras nos próximos meses

Previsão climática para novembro de 2020_La Niña

Previsão climática para novembro de 2020. 

Previsão climática para dezembro de 2020_La Niña

Previsão climática para dezembro de 2020.

Previsão climática para janeiro de 2021

Previsão climática para janeiro de 2021.

A seguir, a previsão climática para o mês de novembro, nas regiões brasileiras, de acordo com a análise do Laboratório Lapis. Confira também uma breve descrição sobre a expectativa de chuva e temperatura, para o fim de 2020 e começo do próximo ano. Nessa previsão, são consideradas a média de chuva e de temperatura esperada, para o próximo trimestre.

Sudeste e Centro-Oeste: as chuvas voltam a se normalizar, porém, serão um pouco tardias. Em anos de La Niña, as precipitações demoram um pouco mais para chegar e costumam se estender mais, a partir do momento em que se estabelecem. É o deslocamento do período úmido. Novembro deverá terminar mais úmido, com maior regularidade nas chuvas.

Nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, é esperado que elas fiquem em torno da média do mês. Já n região do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, poderá apresentar chuvas acima da média. As temperaturas estarão em torno da média nessas áreas, apenas o Pantanal estará mais quente que o normal.

Em dezembro, são esperadas chuvas em torno da média histórica, nessa região, de acordo com o mapa acima. Em algumas áreas, poderá ficar acima da média. Já em janeiro, são esperadas chuvas em torno da média.

Sul: a partir de novembro, as chuvas irão se reduzir, em todos os estados da região. A tendência é de que deverão ficar abaixo da média e não sejam tão frequentes, nos meses de novembro e dezembro. Para os produtores agrícolas, isso deve ser bom, uma vez que o excesso de umidade, no último ano, causou alguns transtornos.

Já em janeiro, são esperadas chuvas em torno da média, no Sul brasileiro. A estiagem pode ficar ainda mais severa naquela região, se o La Niña evoluir para intensidade forte, nos próximos dois meses.

Nordeste: as chuvas vão ocorrer em torno da média histórica, no mês de novembro. Ou seja: em pequenos volumes. Lembrando que neste período do ano, normalmente, predomina a seca nos estados do Semiárido brasileiro. Nos meses de dezembro e janeiro, as chuvas também ficarão em torno da média histórica para o período. As temperaturas ficarão mais altas que o normal.

Ressaltamos que o período chuvoso no Semiárido brasileiro é de fevereiro a maio. Por ainda ser cedo, não é possível fazer a previsão climática para o período. Só adiantamos que há boas perspectivas de chuvas na região, em razão do La Niña, diferentemente da estiagem que deve predominar no Sul do Brasil.

Em Matopiba, região que compreende territórios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, as chuvas serão acima da média, em novembro, e normais, em dezembro. Porém, em janeiro, haverá redução da chuva no estado baiano.

Norte: as chuvas deverão ser acima da média, em quase toda a Amazônia, de novembro até janeiro de 2021.

>> Leia também: Um La Niña está em formação, para a primavera de 2020

Radiografia atualizada da seca no Brasil, a partir de imagem de satélite

Imagem do satélite europeu SMOS estima umidade do solo e seca no Brasil

Imagem do satélite europeu SMOS permite estimar umidade do solo e seca no Brasil.

O mapa acima mostra a estimativa da atual condição da umidade do solo, nas regiões brasileiras, a partir de dados de satélites. A imagem foi processada pelo Laboratório Lapis e é referente ao início de novembro. Chama atenção, no mapa, a redução da estiagem, na área central do País, principalmente no Centro-Oeste, nas últimas semanas. Por outro lado, a estiagem persistiu no Mato Grosso do Sul e tornou-se mais abrangente no sul de São Paulo.

A imagem também mostra que houve redução da estiagem no Matopiba, especialmente no oeste do Nordeste, estado do Tocantins e, de forma mais significativa, no sul da Bahia. Isso ocorre em razão da atuação de fenômenos como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), frente fria e cavado, que atualmente beneficiam aquela área.

O mapa da radiografia da seca já mostra claros sinais dos impactos do La Niña deste ano, que promete não ser apenas moderado, mas caminha para logo se tornar de intensidade forte. Nas próximas semanas, com a intensificação do fenômeno, certamente essa radiografia da seca deverá mudar, com predomínio de estiagem na área central e na região Sul do País.

Anos de La Niña se tornaram mais quentes que aqueles de forte El Niño

Gráfico mostra altas temperaturas, mesmo sob La Niña

Temperaturas se mantêm altas, mesmo sob a influência do La Niña.

No século passado, era comum que os recordes de calor no mundo terminassem com o fim do El Niño. Enquanto o La Niña significava temperaturas mais amenas, o El Niño trazia muito calor. Porém, nas últimas duas décadas, esse cenário mudou.

Como observado no gráfico acima, o La Niña também tem resultado em aumento das temperaturas, em todo o Planeta. Isso ocorre em função da liberação de calor oceânico preso, para a atmosfera.

O La Niña corresponde à fase mais fria do fenômeno Oscilação Sul do El Niño (ENOS). É uma série de eventos oceânicos e climáticos, no oceano Pacífico, que influencia globalmente em chuvas e tempestades. O La Niña pode desencadear secas na Austrália e na Índia, aumentar os ciclones no Pacífico tropical, além de fazer com que as temperaturas do Pacífico oriental fiquem menores, em até 3 a 5 ºC.

O fenômeno La Niña costumava provocar resfriamento nas temperaturas globais. No entanto, isso agora é mais do que compensado pelo aquecimento global. Este ano continua a caminho de ser um dos mais quentes já registrados.

O período 2016-2020 será o quinquênio mais quente de que se tem conhecimento na história. Ou seja, os anos de La Niña agora são mais quentes do que os anos com fortes eventos de El Niño do passado. Com isso, 2020 já é candidato a superar 2015, que recebeu o título do ano mais quente já registrado.

Será que essa sucessão de recordes vai acabar um dia? O golpe de um La Niña quente e a tendência crescente de aquecimento global resultaram em um tremendo acúmulo de calor na atmosfera. E vai demorar para esse calor se dissipar. A longo prazo, nosso Planeta vai continuar aquecendo, pois continuamos aumentando as emissões de carbono na atmosfera. Portanto, não temos perspectiva de quando isso irá acabar.

Todas as décadas, dos últimos 50 anos, foram mais quentes do que as anteriores, e não há sinal de que esse cenário se reverta. O El Niño é um manto de calor, por cima de um Planeta em constante aquecimento, de modo que um La Niña quente só piora ainda mais os recordes de temperaturas no mundo. São fortes evidências do aquecimento global, um assunto que precisa sempre ser levado a sério, para que a desinformação não tome conta da discussão.

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*Post atualizado em: 07.11.2020, às 09h25.

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