Um La Niña está em formação, para a primavera de 2020



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Atualizações de especialistas do Centro de Previsão Climática (CPC), da Administração Oceânica e Atmosfera Nacional (NOAA), confirmaram a presença de um La Niña, no oceano Pacífico Equatorial, em aviso emitido no dia 10 de setembro de 2020.

Os pesquisadores identificaram que o atual resfriamento, no Pacífico tropical, atingiu padrões de intensidade e duração suficientes, para configurar um La Niña

Um La Niña se forma quando a superfície do oceano Pacífico esfria, ficando abaixo da média de longo prazo, na costa do Equador, Peru e norte do Chile. Para a confirmação do La Niña, é preciso que as temperaturas fiquem abaixo de -0,5 oC, por pelo menos três meses consecutivos. 

Os efeitos do La Niña já são sentidos no Brasil. O fenômeno pode agravar a pressão sobre a oferta e o preço dos alimentos. Para uma análise completa dos impactos do La Niña, nas regiões brasileiras, durante a primavera e verão, acesse este post

>> Leia também: La Niña pode agravar pressão sobre oferta e preço dos alimentos

A tendência é de manutenção do La Niña, até abril de 2021. Segundo a previsão da NOAA, há mais de 75% de chance de que essas condições de resfriamento continuem, durante o verão, no oceano Pacífico tropical. 

La Niña deve durar até meados de 2021.

Previsão de consenso de La Niña, até abril de 2021. Fonte: IRI/CPC.

Embora tenha se formado um La Niña, de intensidade fraca, com um leve resfriamento anormal das águas da superfície do Pacífico equatorial, os impactos do fenômeno podem ser ampliados. 

O Meteorologista Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), ressalta que por causa da atual fase negativa da Oscilação Decadal do Pacífico (ODP), iniciada desde outubro de 2019, os impactos de um La Niña fraco podem ser mais fortes que o esperado.

Neste post, analisamos como ficará a previsão climática, nas regiões brasileiras, em um cenário de La Niña fraco, sob influência da ODP. 

>> Leia também: Fim do El Niño - 7 pontos para entender o clima até 2020

La Niña já influencia clima nas regiões brasileiras

La Niña presente no Pacífico equatorial, em setembro de 2020.

La Niña presente no Pacífico equatorial, em setembro de 2020.

Na figura acima, é possível observar a diferença na temperatura superficial do oceano Pacífico, em relação à média de longo prazo (o que os especialistas chamam de “anomalia”).

Precisamente, na costa do Equador, Peru e norte do Chile, a anomalia da temperatura ficou levemente abaixo da média, ou seja, houve um resfriamento (veja cor azul, destacada no mapa). Essa tendência de resfriamento da região central e leste do Pacífico tem sido observada desde maio de 2020. 

>> Leia também: Atualização das condições de El Niño, a partir de maio de 2020

Durante a primavera, o La Niña vai atrasar a regularização da chuva, no estado do Paraná, bem como em boa parte das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Nestes locais, a previsão é de um volume de chuva acumulado abaixo da média, afetando o plantio de alimentos, como soja, cana de açúcar e milho.

De uma forma geral, o Sul do Brasil enfrentará estiagem, na primavera e em parte do verão. No extremo Sul do Brasil, os impactos maiores do La Niña devem começar a partir de outubro. Os ventos interferem na velocidade das frentes frias, que irão passar mais rápido por aquela área, provocando menos chuva. 

Em setembro, a chuva ainda será frequente, em grande parte do Rio Grande do Sul, reduzindo os impactos do La Niña, no cultivo do milho. Todavia, a partir de outubro e, principalmente, de novembro, a estiagem afetará o desenvolvimento da soja gaúcha, bem como do milho e soja da Argentina.

Desse modo, apesar da intensidade mais branda do atual La Niña, não se esperam menores impactos da estiagem no Sul, em relação à safra passada. Na última safra, a estiagem foi duradoura e abrangente, pois afetou toda aquela região, desde novembro de 2019. Para este ano, a previsão é que a estiagem se generalize na região logo em outubro.

Todavia, o meteorologista Humberto Barbosa ressalta que uma das características da influência do La Niña, sob efeito da ODP, é provocar condições climáticas extremas. "Haverá muita variabilidade climática, principalmente em fins da primavera e início do verão. Em novembro, as regiões Sudeste e Centro-Oeste, principalmente as áreas costeiras, estarão sob atenção, em função de grandes volumes de chuva", chama atenção o especialista. 

Em setembro e outubro, a chuva será abaixo da média, com ocorrência de frequentes veranicos (vários dias sem chuva), em Matopiba. A região é formada pela confluência de territórios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

A partir de novembro, haverá maior regularidade na frequência da chuva, em Matopiba. São esperados volumes acima da média, principalmente em Tocantins e na Bahia. 

O verão é a estação mais chuvosa do Brasil e o período de maior produção de grãos. O resfriamento da superfície do oceano Pacífico tropical, desde maio, já influenciou o inverno, com tendência de prejudicar a qualidade das safras na primavera e verão.

El Niño e La Niña na história do Planeta


As fases de aquecimento e resfriamento do fenômeno Enos são denominadas de El Niño e La Niña, respectivamente. Eventos de La Niña ocorrem em frequência menor do que de El Niño. De 1900 a 2019, ocorreram 31 episódios de El Niño e 21 de La Niña.

Nesse período, durante a maior parte (55%) dos anos, não houve El Niño e nem La Niña. Em geral, anos de El Niño tendem a ser um pouco mais quentes do que a média, enquanto anos de La Niña costumam ser mais frios que o normal. Mas há uma grande variação de ano para ano.

>> Leia também: Mudanças climáticas - 10 impactos sobre a Caatinga

O Livro “Um século de secas” apresenta um panorama completo dos eventos de El Niño e La Niña, no Semiárido brasileiro, durante mais de 100 anos. A obra analisa os impactos do fenômeno El Niño, nas atividades hídricas e agrícolas da região, durante cada seca, bem como as medidas políticas de mitigação adotadas.

Humberto Barbosa, autor de relatórios do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), explica que a combinação de El Niño com aquecimento global, processo provocado, em grande parte, pelo ser humano, já ajudou a tornar 2016 o ano mais quente, já registrado na história.

O que é intrigante, segundo o pesquisador, é que 2020 caminha para ser o segundo ano mais quente de que se tem registro, até agora, mesmo sem ocorrer um evento de El Niño.

Pesquisas climáticas indicam que a temperatura média global tem aumentado, como consequência da elevação nas emissões de gases de efeito estufa. Nos últimos dez anos, houve uma escalada, que reflete o aumento na concentração desses gases nocivos, na atmosfera.

“Temos altos e baixos, em função da variabilidade climática trazida pelo Enos, mas é clara a tendência de aumento, na temperatura média do Planeta. Isso é um sinal de que a Terra está ficando mais quente. O fenômeno La Niña ocorre nos intervalos entre o El Niño e a situação de normalidade, das temperaturas do oceano Pacífico”, completa Barbosa.

A temperatura média global, nos primeiros cinco meses de 2020, ficou mais de 1 ºC, acima da média histórica, em relação ao período 1850-1900, segundo o recente boletim da NOAA. Se essa tendência continuar, as temperaturas poderão subir entre 3 ºC e 5 ºC, até 2100.

A grande questão agora é saber se 2020 irá superar o ranking de ano mais quente da história científica, mesmo sem evento de El Niño. Será um assunto curioso para os especialistas se debruçarem.

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*Atualização: 14.09.2020, às 16h59.

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